
Após o carnaval, no meio do processo estatístico de contagem das vitimas por acidentes, algumas fotos publicadas trazem uma série de elementos que podem ajudar a entender o fotojornalismo como instrumento de transformação social - através da legitimação do fato narrado - incluindo nisso o trabalho do próprio fotógrafo e seu papel social.
O desfile em carro aberto de um suposto contraventor em Nilópolis foi publicado em primeira página de O Globo, a princípio como forma de noticiar a tradicional comemoração da vitória das escolas de samba do Rio de Janeiro.
A manchete confirmava que “Beija-Flor ganha pela quinta vez em 6 anos” e ao que tudo indicava, era para ser apenas uma pagina tradicional de pós-carnaval. Logo a relação entre a contravenção e um ente do sistema público de segurança, neste caso, os bombeiros, ficou evidente através do registro do fotógrafo Marcelo Carnaval.
A intenção de Carnaval ao registrar a comemoração do carnaval, era a de cumprir uma pauta tradicional, porém uma rápida análise revelava que algo estava errado na constitucionalidade daquele fato. A imagem dos dois poderes antagônicos em harmonia nota 10, não deveria acontecer. Ela não podia ser aceita como normal. Tinha de ser publicada como a constatação de um fato transgressor, para mostrar que a realidade deve ser essa: o fotojornalismo registra o acontecido, mesmo quando não existe a intenção inicial de se publicar.
Seguida de uma primeira análise, a foto permitia observar que, dentro da cena, encostados na boleia do caminhão, outros fotógrafos registravam a cena dentro da própria cena, uma metalingüística criada involuntariamente por Carnaval.
Em seqüência, foi publicada a foto de Domingos Peixoto desde seu ponto de observação, de cima do caminhão. A imagem era ainda mais constrangedora do que a foto inicial. A foto publicada no dia seguinte mostrava um agente do estado, uniformizado, sentado criteriosamente no chão do caminhão de forma que não atrapalhasse o presidente de honra em sua comemoração. A posição dos personagens naquela imagem sugere que o poder público está em nível inferior à ilegalidade. Infelizmente, é isso o que a leitura da foto revela.
Não cabe ao fotógrafo, questionar o que é certo ou errado, não é dele a responsabilidade dos problemas acarretados pela atitude que levou à constatação do fato. O fotojornalista social - no sentido de quem registra em seu trabalho as questões sociais e não a relação entre paparazzos e colunáveis - deve ter a exata noção de até aonde deva ir a imparcialidade dentro de seu trabalho, da importância da questão ética em seus registros, principalmente no resguardo da dor das vítimas quando expostas à violência.
Já a pessoa pública, fotografada em local público, deve antes de tudo ter em mente que se ela é uma celebridade, vive exposta. Certamente será questionada por seus atos e terá interpretadas as suas atitudes. Existe um profundo abismo entre as celebridades de plantão e o morador de comunidade que teve seu filho morto por uma bala perdida. Todos eles estão no enquadramento do fotojornalismo. A distinção entre o que é nefasto, abominável ou ético é o leitor da imagem quem faz.
Existe a personalidade que usa a mídia como meio de ascensão na escalada pela fama, principalmente nesta época do ano, e quando julga ter chegado lá, trata fotógrafos e jornalistas como seres diabólicos, munidos de maquinetas infernais. O fotógrafo de jornal durante os desfiles nos camarotes e nos períodos que antecedem a grande festa, está munido de um super poder que transforma tudo o que registra em fatos determinantes para levar ao inferno ou ao paraíso celebridades e aspirantes a famosos.
Em outro oposto, infelizmente indispensável, está o registro dos conflitos urbanos em que o fotógrafo de “guerrilha” mostra os moradores de comunidades expostos à violência, tendo sua tragédia pessoal publicada na mídia. São nestes tristes episódios que o processo ético do fotojornalismo deve estar sendo observado por toda sociedade.
Por isso, é fundamental ter a consciência de que o fotojornalista não imputa ao fotografado atributo cultural, social ou político. Como já declarou Flavio Damm, um mestre da fotografia e nas questões sociais envolvidas nela, - “Fotógrafo não faz demagogia, fotógrafo faz fotografia”.
Guillermo Planel